Entender os próprios sonhos e os daqueles que conosco convivem é mesmo um desafio na vida. E desafio dos grandes, pois implica em mergulhar profundamente dentro de nós mesmos e, quanto possível, dos outros; exige desvendar os mistérios e encarar quem somos na nossa realidade mais íntima.
O problema é o enfrentamento do dilema que o poeta inglês mais famoso de todos tempos nos apresenta e que reproduzo acima: “Sabemos o que somos, mas não sabemos o que poderemos ser.” (William Shakespeare - 1564-1616). Está posta a enorme aventura de virmos a saber o que poderemos ser, caso não fujamos do enfrentamento de nossa realidade oculta, aos outros e também a nós; caso não nos esquivemos de acordar para dentro de nós mesmos.
Mas será que vale a pena acordar para dentro? A resposta que Ramon Marcio de Oliveira nos dá, em seu criativíssimo e agradabilíssimo texto “Viagem ao coração”, é um sonoro SIM!
Focado na dinâmica relacional, o texto se envereda na percepção da realidade paterna contemporânea a partir da visão do filho, de seu mundo, de suas necessidades e de seus desejos. O autor desnuda a pessoa do pai, deixando-o tão exposto quanto livre; tão verdadeiro quanto simples; tão descoberto quanto desejado. A beleza e ternura do texto no entanto perdem para sua importância e relevância, ao mesmo tempo que ajudam a construir para o leitor a extraordinária ‘viagem ao coração’.
Cada filho relegado, esquecido e abandonado dentro de casa, pelo próprio pai, tem no texto a chance de se fazer ouvir. Isso mesmo, as páginas que seguem dão voz a muitos filhos emudecidos pelas experiências difíceis da vida; oferece expressão a tantos que gostariam de ver reverberando o que faz chorar suas almas.